Se bem lembro de meus posts anteriores (e foram bem poucos), esta é a primeira vez que escrevo algo sobre a minha profissão (aquela de tradutor, neste caso). Sem mais delongas, vamos aos fatos.
Quem está no meio conhece bem as dificuldades que todo tradutor enfrenta: dificuldade de inserção no mercado, subvalorização do trabalho, ausência de uma regulamentação da profissão, agências exploradoras… e a lista segue conforme a experiência de cada um.
Pois falando em experiência, a minha colocou-me diante de uma situação no mínimo inusitada (ou não). Compartilho a história com vocês e gostaria de contar com opiniões, ainda que divergentes.
Há poucos dias fiz uma tradução de um material do francês para o português. Tratava-se de sinopses de filmes e de suas ficha técnicas. Pois bem. Algo simples, que já venho fazendo há algum tempo, inclusive quando fiz estágio no Consulado da França em São Paulo, tipo de trabalho bastante requisitado pelo departamento de audiovisual.
Entreguei a tradução para a agência – perfeitamente dentro do prazo estipulado – para no dia seguinte receber uma ligação. A pessoa do outro lado da linha começou lembrando-me que eu havia tirado de caixa alta os sobrenomes do pessoal da ficha técnica (“sim, claro!”) e colocado em capitalização normal para um sobrenome e para os padrões brasileiros (primeira letra em maiúscula apenas), e seguiu solicitando que eu voltasse para caixa alta como estava antes.
Preciso dizer que eu neguei-me?
O único argumento que lhe expus foi: isso é uma especificidade da língua francesa. E tive que ouvir um “por via das dúvidas”. Como se meu tempo não fosse precioso e o valor que eles me pagam por palavra não fosse ridículo.
Estou falando de algo que está além de questões linguísticas, mas que não pode ser desconsiderado. Residem, também aí, diferenças entre um profissional que domina a língua da (ou para a) qual está traduzindo e aquele que simplesmente aventura-se.
Gostaria de saber se eles também solicitam a tradutores do inglês que, em português, separam centenas de milhares com “.” (ponto) e inteiros de decimais com “,” (vírgula) que voltem para o padrão americano (justamente o contrário). Para mim, estamos falando da mesma coisa.
Vejam, por exemplo, o site do governo francês (na coluna do lado direito):
http://www.gouvernement.fr/gouvernement
Comparem agora com a lista de oficiais do gabinete do Ministério da Cultura:
http://www.cultura.gov.br/site/sobre/gabinete/
Em português, NÃO usamos nome e segundo nome com apenas inicial maiúscula e sobrenome todo em maiúscula. E não estou tratando de referências bibliográficas ou chamadas de referência em texto.
Causaria estranhamento para um brasileiro ver:
Dilma Vana ROUSSEF
ou
Fernando MEIRELLES
Ao passo que um francês estaria familiarizado com essa capitalização.
Ainda que o cliente houvesse solicitado que se mantivessem as caixas altas (o que não foi o caso, já que o funcionário que me ligou disse que era só “por via das dúvidas”), isso deveria ter sido informado antes, conforme pude levantar com uma amiga que traduz para várias empresas (estas, ao que me parece, sérias).
Pode parecer tempestade em copo d’água, mas cada vez mais percebemos que desaforos do gênero estão sendo cometidos por agências de tradução.
Se não gostaram, voltassem eles mesmos para caixa alta – e foi o que aconteceu.